Vocabulário de Empresa

Para compensar o último post, aqui vai um curtinho.

Esses dias vi um vídeo do Porta dos Fundos no Youtube e me lembrei de quando comecei a trabalhar aqui no Canadá, 4 anos atrás.
Alguns meses depois até escrevi este post (Adaptação no Trabalho) para contar sobre os meus primeiros meses na empresa.
Mas achei engraçado este vídeo porque “vocabulário de empresa” era um dos pontos que eu mencionava no post de 2014. Empresas grandes sempre têm um leque de expressões e palavras que normalmente só se usam dentro da empresa.
E se na nossa própria língua às vezes é difícil de entender, imagina quando você está em outro país! Nenhum curso de língua ensina “vocabulário de empresa”.
Então para demonstrar como você se sente quando começa no seu primeiro emprego no exterior, tentando entender o que as pessoas estão falando, é mais ou menos assim:

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Confusão no aluguel – parte 1

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Esta é uma história antiga, que enrolei 4 anos para contar e acho que chegou a hora de compartilhar nossa bizarra experiência com o apartamento que alugamos quando chegamos no Canadá.

Vá pegar um café… a história é longa! Provavelmente o post mais longo que já escrevi. Aliás, você se cansará no meio. Mas leia tudo, pois o final é surreal.

Encontramos nosso lar doce lar no Airbnb, antes mesmo de sair do Brasil. Um apartamento super bonito, reformado, no térreo (importantíssimo em Montréal), a 50 metros do metrô, super bem localizado, numa rua tranquila e todo mobiliado.

O preço era um pouco acima da média, mas já incluía internet, tv a cabo e todos os móveis e utensílios.

Para fechar negócio, os “proprietários” quiseram nos entrevistar pelo Skype. Sem problemas. Marcamos um horário e foi tudo OK, falamos com eles. Na verdade eles não eram proprietários, eram locatários e queriam sub-locar o apartamento pra gente. Até aí tudo bem. Pesquisei e vi que isto era legal e super comum em Montréal.

Esse casal era um americano (que aqui chamarei de Sr. Bacon, para evitar expor os nomes verdadeiros dos personagens) com uma francesa (que aqui chamarei de Monalisa). Eles moraram no Canadá por alguns anos e resolveram se mudar pra França. Como o contrato de aluguel terminaria só em junho de 2014 (estávamos em agosto de 2013), eles resolveram sub-locar o apartamento.

Negócio fechado, ficamos super felizes pois o apartamento parecia ótimo! Fizemos um contrato até maio de 2014, pois Bacon e Monalisa disseram que voltariam para o Canadá em junho para vender as coisas deles.

Bom, dia 20 de setembro de 2013 nos mudamos para o Canadá, como vocês já sabem. Fomos direto para este apartamento. E ele era realmente muito bom, tudo como imaginávamos. E de quebra os vizinhos também eram super tranquilos. Perfeito.

Tudo correu relativamente bem durante meses. De vez em quando falávamos pelo Skype com Bacon e Monalisa. Eles eram meio esquisitos e desconfiados, mas nada que atrapalhasse nossa estadia. Até então não conhecíamos a verdadeira proprietária do apartamento, uma canadense que chamaremos aqui de Dona Neves.

Até que chegou o mês de abril.

Neste momento, Bacon e Monalisa precisariam avisar Dona Neves se iriam renovar o contrato ou entregar o apartamento no final de junho. Então eles nos contactaram para saber o que nós queríamos fazer. Nós dissemos que gostávamos muito do apartamento e que tínhamos intenção de continuar lá. Mas como nosso contrato com eles não incluía o mês de junho, não tinha como a gente sair com as nossas coisas de lá (neste momento já tínhamos coisas nossas e até alguns móveis) para voltar 1 mês depois. Então eles disseram: “sem problemas então, vocês pagam pra gente o mês de junho também e depois de julho vocês continuam com um contrato direto com a Dona Neves”. Perfeito, era o que queríamos.

Então Monalisa disse: “Aí em junho nós iremos para Montréal vender nossas coisas. E ficaremos no apartamento com vocês, podemos ficar no segundo quarto. E aí damos um desconto no aluguel do mês de junho”. Repare que o trecho entre aspas não tem nenhum ponto de interrogação. Pois o que Monalisa disse não foi uma pergunta, foi uma afirmação. Já começamos a achar a Monalisa muito folgada. Já achávamos ela esquisita e meio mandona, mas depois dessa…

Claro que não aceitamos. Claro que não queríamos eles lá com a gente por um mês! Dissemos que então era melhor que a gente não continuasse lá e que fôssemos embora de vez no final de maio.

Bom, eles acabaram deixando essa ideia pra lá e disseram que iriam ficar num hotel. Pronto, resolvido.

Neste meio tempo, conhecemos a proprietária, Dona Neves, e assinamos o novo contrato com ela, que começaria em julho. Na ocasião, sabendo que Bacon e Monalisa iriam querer vender coisas pra gente, tive a perspicácia de perguntar para Dona Neves o que era deles e o que era dela no apartamento. Ela disse: “é tudo deles, exceto o fogão. O fogão é meu.”

Maravilha. Agora tínhamos um novo contrato, por mais um ano, e direto com a proprietária. Portanto, mais barato.

Mas ainda tínhamos que terminar o contrato antigo e, sobretudo, dar um jeito de nos livrarmos das coisas de Bacon e Monalisa.

Bacon e Monalisa tinham móveis, utensílios de cozinha, eletrodomésticos, toalhas, roupas de cama, tapetes e havia algumas roupas pessoais que eles deixaram lá. Também havia miudezas, artigos de decoração, ferramentas, etc. Só o que realmente nos interessava lá eram os eletrodomésticos (geladeira, máquina de lavar-louça, fogão, lavadora e secadora). Eram de qualidade, novos, de aço escovado, modernos e bonitos. Os móveis eram de gosto duvidoso, já bastante usados e de baixa qualidade. Não tínhamos interesse em praticamente nada.

Mas de qualquer forma, adotamos uma estratégia para negociar com eles. Vamos tentar comprar as coisas grandes (eletros e móveis) e depois o que a gente não quiser, a gente revende. Estávamos preocupados com a confusão que seria eles tendo que ir lá todo dia vender cada móvel. Seria um transtorno. Então se comprássemos as coisas grandes, talvez eles só pegassem as miudezas e fossem embora. Em 1 dia tudo estaria resolvido. Mesmo que tivéssemos prejuízo revendendo os móveis deles, ainda valia a pena pelo transtorno evitado.

Então, como sei das minhas aulas de negociação que nunca se deve dar a primeira oferta, perguntei para eles quanto eles queriam pelos móveis e eletros. Aparentemente eles também não queriam dar o primeiro preço e disseram para a gente fazer uma oferta.

Demos então um preço pelos eletros e pelos móveis. Nossa, eles ficaram SUPER OFENDIDOS! Escreveram emails super grossos, praticamente xingando a gente e dizendo que queríamos nos aproveitar deles porque eles não estavam lá e blablabla. Falaram um monte. Depois ficaram escrevendo um monte de desaforos indiretos no Facebook.

Bom, neste ponto vimos que eles eram realmente loucos. Nem adiantava argumentar nada. Então deixamos a poeira baixar e depois escrevi para eles que era melhor deixar pra lá, que não daria para negociar, que não tínhamos mais interesse em nada. E também que iríamos sair no final de maio com as nossas coisas, eles poderiam ficar lá em junho e voltaríamos em julho.

Aí como num passe de mágica eles mudaram totalmente. “Não, não, não. Peraí. Nós podemos negociar. Só achamos que o preço que vocês deram para os móveis é muito baixo. Eles valem muito mais.” Ué, se achavam isso, bastava responder isso…

De qualquer forma, não tínhamos interesse em negociar mais pelos móveis. E ao mesmo tempo eles acharam correto o preço pelos eletros. Então pronto. Acertamos de comprar os eletros, a TV, dois abajures e mais uma ou outra coisa.

Então Monalisa veio oferecer o fogão! “E o fogão, vocês não têm interesse? É um Kitchen Aid, a gás. Ele novo vale 3 mil dólares. Podemos te vender por mil.” Até era, realmente, um fogão excelente e caro (fogões a gás aqui custam mais caro). Mas não era deles! Ainda bem que eu tinha perguntado para a Dona Neves. Então respondi para Monalisa que não tinha como comprar o fogão pois a Dona Neves disse que o fogão é dela.

Nossa… Monalisa começou a fazer mais escândalos de novo! “Por que você foi falar com a Dona Neves? Ela não tem direito de dizer que o fogão é dela, ele é meu, porque isso e aquilo e blablabla…” Falou um monte de novo.

Novamente, sem perder a calma, dissemos que era melhor ela se acertar com a proprietária e a gente não se envolver nesta história do fogão. Ela resmungou por mais uns dias e ficou por isso mesmo. Não se falou mais em fogão.

Até que chegou o já temido mês de junho. Ainda hoje me pergunto “Meu deus, o que fizemos para merecer esses dias infernais?”

Lá pelo dia 6 de junho finalmente Bacon e Monalisa chegam em Montréal para pegar as coisas deles.

Monalisa então manda uma mensagem dizendo que já chegaram e se poderiam ir no apartamento no dia seguinte. Dissemos que tudo bem e marcamos um horário.

Na minha ingenuidade (ou esperança), achei que eles já chegariam com caixas para levar o máximo de coisas possível. Era o que eu faria.

Aí eles chegam sem nada nas mãos, nem uma sacola, nada. Então observaram as coisas, até para lembrar de tudo que eles tinham lá, e tiraram fotos das coisas que eles queriam vender. Então disseram que precisariam de alguns dias (era o que eu temia) para tirar tudo e vender os móveis. Então afirmaram (não perguntaram) que poderiam ficar lá durante o dia enquanto a gente fosse trabalhar.

Claro que respondi: “Negativo, só depois das 6 da tarde, quando nós estivermos em casa.” Argumentaram um pouco mas acabaram concordando.

Então começaram a ir lá todo dia entre 6 da tarde e 10 da noite. Ficavam lá, jogavam tudo no chão, tiravam tudo dos armários, ficavam discutindo entre si.

Começamos a ficar super estressados pois todo dia era essa bagunça e eles fechavam uma caixinha por dia. E não levavam nada. Iam deixando lá tudo bagunçado e só avançava uma caixa por dia.

Em 2 dias nós já não tínhamos mais onde ficar ou comer. Ficávamos isolados no nosso quarto pois eles dominaram o apartamento todo com as tranqueiras deles pelo chão.

Só isso já era extremamente irritante. Mas, para piorar, Monalisa ficava resmungando, sem disfarçar, coisas como “olha como isso está sujo, eu não deixei isso assim. Que absurdo, amontoaram nossas coisas num armário. Não têm cuidado com as nossas coisas.” Passavam o tempo todo resmungando. Aquilo subiu nos nossos nervos, mas ficamos quietos no quarto todo dia, evitando conflitos.

De vez em quando ia lá alguém para retirar um móvel ou algo que anunciaram pelo Kijiji. Já fazia 2 semanas que estavam lá desse jeito. A gente não aguentava mais. O negócio não avançava. Continuava tudo bagunçado, poucas caixas feitas, e eles não levavam nada embora. Todo dia chegavam com uma caixinha de papelão nas mãos. No final de semana eles faziam vendas de garagem. A gente ficava lá preso, sem poder sair de casa, e ao mesmo tempo confinados no nosso quarto por vários dias.

Monalisa era uma pessoa muito chata, mas muito mesmo. Irritante, mandona, bipolar, explosiva, rabugenta. Louca é o melhor adjetivo. Ela ficava só mandando no marido. Bacon tinha certamente algum atraso mental ou então era simplesmente idiota ou de repente apenas conhecia bem a esposa que tinha. Ele ficava quieto e só obedecia as ordens da Monalisa. Ela não ajudava em nada na organização das coisas. Apenas mandava o marido fazer isso e aquilo, ficava resmungando um monte o dia inteiro e não parava de falar mal da gente. Percebi que Bacon estava também estressado. Mas ficava quieto pois não tinha como bater de frente com Monalisa.

Num belo dia (belo mesmo, fazia muito calor naquele verão e não podíamos sair de casa), estávamos no quarto apenas observando de longe a bagunça, o entra e sai de compradores e tal, quando vejo Monalisa e uma compradora negociando os abajures que tínhamos comprado deles. Aí tive que intervir. “Peraí, esses abajures nós compramos de vocês, lembram?”

Monalisa: “Sim, mas em francês abatjour significa só essa parte de cima (a cúpula). Então foi só isso que vocês compraram. A base nós vamos vender.”

Bom, nesta hora toda a raiva e estresse que estávamos acumulando se liberaram. Fiquei muito bravo e começamos a discutir barraqueiramente. Sem agressões, claro, mas discutimos feio. Lembro bem da cara da pobre mulher que foi comprar os abajures. Elas estava com uma cara perfeita de “nossa, que gente louca, deixa esse abajur pra lá, vou embora”. Deixou os abajures lá, saiu de fininho e foi embora.

Então, durante a calorosa discussão, Bacon começa a ter um ataque epiléptico ou sei lá o quê. Começou a tremer, deitou no chão, meio que chorava de nervosismo. Era só o que faltava!

Monalisa pegou uma água para ele e ficava falando “olha o que vocês fizeram com ele”. Ah sim, claro. Um casal de loucos e nós é que somos culpados.

O estresse com certeza bateu nele também. Ele dizia: “estou cansado, Monalisa, vamos terminar logo isso…”

Dissemos que era melhor eles irem embora e praticamente os chutamos para fora.

Eles eram tão loucos que no outro dia voltavam normalmente, como se nada tivesse acontecido. Mas pelo menos depois disso eles resolveram acelerar a arrumação das coisas.

Depois de umas 3 semanas eles finalmente terminaram as caixas e venderam os móveis.

Então perguntaram que horas o transportador poderia passar lá para pegar as caixas. Marcamos um horário e tudo certo. Na hora marcada uns caras foram lá e levaram as caixas.

Monalisa então disse que eles então voltariam no dia seguinte apenas para buscar uma pequena caixa com coisas pessoais.

Por que já não levavam logo com eles para hotel??? Mas bom, enfim… para evitar nova confusão, concordamos. Então eles perguntaram que horas poderiam passar lá. Dissemos que por volta das 6 horas, como sempre, quando voltaríamos do trabalho.

Lembro bem da cara de Monalisa nesta hora, concordando, mas ao mesmo tempo raciocinando algo.

Depois de tanta confusão, eu já ficava extremamente preocupado de sair de casa o dia todo. Então quando saímos, eu escondia todas as nossas coisas de valor, mesmo não permitindo que eles ficassem lá sozinhos.

Bom, era então o último dia do inferno. Apenas mais um dia de paciência. Vamos trabalhar, quando voltarmos eles passarão lá para buscar essa caixinha e pronto. Nunca mais veremos a cara deles.

Neste dia a Cá por acaso voltou mais cedo pra casa, por volta das 15h. Eu ainda estava no trabalho. Então quando ela chega em casa, tem uma surpresa e me liga na hora: “Má, o fogão sumiu!!!”. Lembram da novela do fogão, lá no começo do post?

Uma raiva e desespero enormes me atingiram. Disse para ela ver se não tinha ninguém lá, se não tinham pego mais nada e para ir ligando pra polícia pois eu estava indo para lá. Fui até meu chefe e disse que precisava sair pois tinham roubado nosso fogão.

“Roubaram um fogão??”

“Sim, depois eu explico.”

Fazia apenas um mês que eu estava trabalhando na empresa e já estava dando uma desculpa super esfarrapada para sair mais cedo. Ele deve ter pensado: “essa desculpa eu nunca vi”.

Também liguei para a proprietária, Dona Neves, e contei o que tinha acontecido. Ela nem estava sabendo que Bacon e Monalisa estavam no Canadá.

Fui correndo pra casa. A polícia já estava lá fazendo a ocorrência. O policial leva um computador pra dentro de casa e registra a ocorrência lá mesmo. Dali a pouco chega a proprietária também. Tentamos ligar para Bacon e Monalisa mas não conseguimos contato. Provavelmente já estavam voando de volta pra França.

Contamos toda a história para Dona Neves e o policial. Não havia sinal de arrombamento. Alguém entrou com as chaves. Claro que tinham sido eles. Mas tomamos o cuidado de não acusar diretamente. Apenas de contar tudo o que tinha acontecido. O policial registrou tudo, perguntou se sabíamos onde os dois estavam hospedados. Não sabíamos. Ele disse que ficaria tudo registrado contra eles, mas que provavelmente já estavam no avião naquele momento. Não tinha muito o que fazer. Mas que se tivéssemos notícias deles, que deveríamos avisar a polícia.

Bom, Neves e policial foram embora e nós não acreditávamos no que tinha acabado de acontecer.

No outro dia fomos pro trabalho normalmente.

No final da tarde, ainda no trabalho, Dona Neves me liga.

Dona Neves: “Então, esse negócio do fogão. Precisamos acertar isso.”

Eu: “Acertar o quê?”

DN: “Você sabe, eu fiquei no prejuízo nesta história. Além de levarem meu fogão, Bacon e Monalisa não me pagaram o aluguel de junho. Preciso que você me reembolse.”

Eu: “Olha, eu sinto muito por isso, mas eu não tenho culpa se alguém entrou na sua casa e roubou seu fogão ou se seu locatário não te pagou.”

DN: “Mas você tinha que ter me avisado que eles estavam aqui e tal.”

Eu: “Como assim? Isso é problema seu com eles.”

Dona Neves: “Bom, só pra te dizer. Eu fui lá no apartamento e troquei as fechaduras. As chaves estão comigo. Você tem que vir pegar comigo e então acertaremos essa história do fogão.”

Nossa, fiquei muito nervoso com ela e disse: “minha esposa está voltando pra casa neste exato momento. Veja a chuva que está la fora (chovia muito neste dia). Se ela chegar em casa e não conseguir entrar, eu vou chamar a polícia!”

A mulher ficou então preocupada. Na hora disse “não, tudo bem, pode deixar. Eu vou pra lá então e a gente conversa.”

Era só o que me faltava. A proprietária agora dando uma de louca.

Ela foi rapidinho para lá. Quando a Camila chegou, ela já estava lá. Eu cheguei logo depois. Então conversamos mais civilizadamente e novamente dissemos que lamentávamos por tudo, mas que ela não podia nos cobrar por isso. Ela acabou concordando e só pediu para refazermos o contrato do aluguel, pois ele incluía o fogão. Então o novo contrato não incluiria e teríamos que comprar nosso próprio fogão. Tudo bem. Também não iríamos exigir que ela comprasse outro fogão para usarmos pois estava no contrato. Concordamos e refizemos o contrato sem o bendito fogão. E assim ficou. Finalmente conseguimos nos livrar de Bacon e Monalisa e nos acertamos com a proprietária.

Mas nossa, que estresse! Só de lembrar, fico nervoso!

Interessante que Bacon e Monalisa entraram lá para pegar o fogão (provavelmente venderam para alguém e foram lá com a pessoa buscar enquanto não estávamos em casa) mas não pegaram nada nosso. Não mexeram em nada nosso ou que compramos deles. Nem abriram a porta do nosso quarto. O negócio era realmente com o fogão.

Na verdade, Dona Neves fez um rolo com os dois pelo fogão mas fizeram apenas um acordo verbal. Qualquer dia conto a história do rolo do fogão.

Bom, finalmente essa parte da confusão acabou. (Realmente nunca escrevi um post tão gigante. Agora está em exatamente 3000 palavras, segundo a contagem do site.)

Tudo transcorreu bem nos meses seguintes, mas depois ainda tivemos mais uns problemas com a dona do apartamento. Mas esta história vai ficar pra parte 2.

Até mais!

Médico de Família

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Um assunto que não escrevo muito é saúde. Então hoje vou falar sobre algo fundamental por aqui, que é o médico de família. Esta semana fui ao médico e pensei “nossa, como nunca escrevi sobre médico de família?”.

Só para dar uma ideia da importância dele, sua permanência no Canadá se divide em duas partes: antes e depois de você ter seu médico de família.

Como você sabe, no Brasil quando você quer ir ao médico, tenta adivinhar o que você tem, pesquisa qual o especialista que resolve aquele problema, pega o livrinho do plano de saúde, procura um médico daquela especialidade, liga e agenda uma consulta. Aqui no Canadá é TOTALMENTE diferente.

O imigrante, quando chega, deve se inscrever no sistema público de saúde. Há uma carência de 3 meses e depois disso você pode começar a usar o sistema público. De repente te dá uma dor de barriga, sei lá. Como você faz para ir ao médico? Você não recebe nenhum “guia do usuário” do sistema de saúde.

Bom, a primeira coisa a saber, e talvez a mais importante, você NÃO TEM COMO agendar uma consulta direto com um especialista. Não tem. Ponto. Você precisa OBRIGATORIAMENTE passar por um médico clínico geral. E é ele quem vai te encaminhar para um especialista, de acordo com o seu problema e se ele não puder resolver.  E como achar um clínico geral?

Aqui no Québec, se você não tem médico de família, você deve procurar uma clínica sans rendez-vous. A lista se encontra neste site. Aí é que está o problema. Geralmente estas clínicas têm poucas vagas para atendimento sans rendez-vous. E cada uma tem uma forma de agendar a consulta (apesar de serem sans rendez-vous, que significa “sem agendamento”).

Algumas funcionam por ordem de chegada. Você chega cedo, fica na fila, dá seu nome, e eles te dizem que horas você será atendido. Pode ser no final do dia. Aí você volta no horário agendado. O problema é que, como eu disse acima, geralmente são poucas vagas no dia. Então você corre SÉRIO risco de ficar numa fila, no frio, esperando a clínica abrir e acabar não conseguindo uma consulta. Tem que voltar de novo no outro dia ou tentar outra clínica.

E existem também outras que você liga no dia anterior, num horário específico, e agenda sua consulta para o dia seguinte. Novamente, como não são muitas vagas, em alguns minutos elas acabam. Aí você tenta de novo no dia seguinte.

Conclusão: pode ser muito árduo conseguir uma consulta, ainda mais em tempos de gripe.

Uma última opção é ir até um hospital e passar no pronto socorro. O problema é que hospital não funciona por ordem de chegada, mas por prioridade. E como você não está numa situação de urgência, qualquer um vai passar na sua frente e você corre o risco de ficar horas esperando.

Então essa é a penúria de quem não tem um médico de família.

Então, PELAMORDEDEUS, como faço para ter um médico de família??

Bom, recomendo ao imigrante já ir atrás disso assim que receber sua carteirinha do sistema de saúde. Aqui no Québec, você pode se inscrever neste site. O governo vai procurar um médico de família para você. Pode demorar semanas, meses e às vezes, anos, para você conseguir um. Tudo depende da região em que você mora.

Mas uma dica é ficar atento a clínicas novas que estiverem abrindo perto da sua casa. Você pergunta se estão aceitando novos pacientes e, se estiverem, você já se inscreve na hora. Foi o nosso caso. Ficamos sabendo de uma clínica nova, fomos lá e conseguimos nossa médica de família. Aliás, sempre que for em qualquer clínica, pergunte se eles têm vaga para novos pacientes. Às vezes você dá sorte de ter alguma vaga disponível de alguém que saiu daquela clínica. Costuma ser mais rápido que esperar o governo achar um médico para você.

Aí depois que você tem seu médico de família, tudo muda. Fica muito mais fácil consultar o médico. Basta ligar na clínica e agendar um horário com seu médico. Pronto, simples. Ele tem todo seu histórico, te conhece e atende toda a família. E quando precisar, ele vai te encaminhar para um especialista ou para um exame. Nossa, é tão mais simples! Desta forma, posso dizer que o sistema funciona bem. Sem médico de família, é difícil!

E se eu tiver um plano de saúde particular, é melhor? Não, é exatamente igual. Pois as clínicas, médicos e hospitais são os mesmos. Não tem separação de público e privado. Se você tem um plano público, você frequenta exatamente os mesmos médicos, clínicas e hospitais de quem tem uma cobertura privada. A diferença é só quem vai pagar a conta: a seguradora ou o governo.

Bom, por hoje é só.

Até o próximo post!

Férias no Brasil

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Primeiramente, Feliz 2018 a todos! Muita saúde e alegria para vocês!

Faz muito tempo que não escrevo e uma das razões é que estávamos de férias no Brasil. Já fazia 3 anos e meio que a gente não voltava pra lá!

Foi muito legal reencontrar os amigos, a família, o calor e a comida. A Amanda brincou bastante com os primos e as nossas famílias curtiram bastante a nossa filhinha.

Eu estava morrendo de vontade de comer algumas coisas que não tem por aqui ou que não são tão boas aqui no Canadá. Matei a vontade de comer:

Doce de leite – tem aqui, mas não é a mesma coisa

Pizza de São Paulo – é a melhor do mundo, indiscutivelmente

Pastel de feira – não tem aqui

Bisnaguinha – coisa besta de sentir falta, mas estava com vontade

Pão francês – aqui não tem

Linguiça calabresa – aqui tem milhões de tipos de linguiça, mas não a calabresa

Esfiha do Habib’s – outra coisa besta de sentir falta, mas estávamos com vontade também

Pão de queijo – não existe aqui (mas dá para comprar os ingredientes e fazer em casa)

Acho que era isso em termos de comida.

Antes de irmos, eu estava curioso para saber que impressão eu ia ter do Brasil.

Então aqui vão algumas impressões boas e ruins que tive:

Sujeira: algumas regiões de São Paulo me surpreenderam pela sujeira. Lixo por toda parte e muitas praças em que a “grama” tinha pelo menos 1.5m de altura. Provavelmente sempre foi assim, eu é que estava acostumado e não reparava.

Calçadas: outra coisa que sempre foi assim mas eu não reparava (tanto) eram as calçadas. Se é que podemos chamar de calçada. Eu saía com a Amanda para passear no carrinho de bebê mas era totalmente impossível andar nas calçadas. Tínhamos que ir pelo meio da rua. Extremamente perigoso. As calçadas são completamente inacessíveis a carrinhos de bebê, cadeiras de roda, etc. São cheias de degraus, buracos, diferentes revestimentos, são muitas vezes estreitas, têm postes no meio do caminho e por aí vai.

Arquitetura (falta de): sempre foi assim, mas depois de passar muito tempo fora, aquilo chama ainda mais atenção. Nossa, no Brasil cada um constrói de um jeito. Não existe controle/padrão nenhum. É uma zona. E em geral, tudo muito mal acabado, mal cuidado, sobretudo nas periferias.

Pobreza: também provavelmente não mudou nada, mas me chocou a quantidade de pessoas que moram na rua, principalmente na praça da Sé.

Trânsito: logo que chegamos, num sábado de manhã, pegamos um trânsito de mais de uma hora entre o aeroporto e a casa dos nossos sogros. Para um sábado, isso é bastante.

Por outro lado, me deu a impressão que havia menos motos passando loucamente entre os carros.

Uma outra coisa interessante que me chamou a atenção foi a variedade e o tamanho das árvores. Nossa, vi uns eucaliptos (acho que eram eucaliptos) de uns 40 ou 50m de altura. Aquilo me chamou muito a atenção. No Canadá as árvores em geral são baixas.

Ouço muita gente dizer que se espanta com o preço das coisas quando vai ao Brasil. Isto não me surpreendeu não. É verdade que muita coisa aumentou de preço, mas ainda assim diversos produtos são mais baratos que no Canadá, especialmente os frescos: frutas, legumes, leite, carne, etc. Comidas industrializadas são em geral mais caras. Roupas são muito mais caras! Porém sapatos são melhores e mais baratos. Tênis são bem mais caros. No geral, para as coisas do dia-a-dia, sobretudo comida, dá mais ou menos na mesma comparando os preços daqui e de lá.

Troco: pagávamos muitas compras em dinheiro e me chamou a atenção a dificuldade dos caixas em dar troco. Nossa, eles nunca têm troco! Têm que ficar pedindo moedas para arredondar o troco, ou dão troco em balinhas. No Canadá qualquer comércio tem troco suficiente para compras em dinheiro, mesmo estabelecimentos onde normalmente não se compra em dinheiro, como lojas de roupa.

Caixas: por falar em caixas, nossa, como os caixas de supermercado do Brasil são lentos! O tempo que eles levam com um cliente é o tempo que um caixa canadense já teria passado uns 3 clientes! Sem exagero!

Mas o que mais se destaca, e positivamente, é o clima. Ah, o clima do Brasil é bom. O de São Paulo então, é próximo da perfeição. Nem muito quente, nem muito frio. Nem muito seco, nem muito úmido. E como foi bom passar o Natal e o Ano Novo no calor! Que saudades!

Amanda curtindo sua piscininha

Amanda curtindo sua piscininha

Também bateu uma nostalgia de ver alguns lugares e pessoas. Isto tem também muito valor.

Bom, acho que já escrevi bastante por hoje. Mais pra frente conto um pouco mais sobre a viagem e diferenças entre Brasil e Canadá.

Até o próximo!

Devolvendo Impostos

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Às vezes vejo umas notícias aqui no Canadá que parecem mentira, que não conseguiria nem imaginar no Brasil.

Hoje o Ministro de Finanças do Québec anunciou o que vai fazer com a atual sobra no orçamento. Sim, você leu direito. Está sobrando dinheiro no Québec! E vocês sabem quanto? Cem mil? 1 milhão? 10 milhões? 100 milhões?

Estamos falando de nada mais nada menos que 4.6 BILHÕES de dólares! E isto é só na província de Québec. Só esta notícia já é impressionante.

Mas o mais incrível ainda está por vir.

O governo provincial vai DEVOLVER dinheiro de impostos para os contribuintes. Sim, devolver. Em dinheiro (cheque, na verdade) e em redução de imposto de renda.

Quem tem filho em idade escolar vai receber em casa um cheque de $100 por cada filho. E também haverá uma redução da alíquota de imposto de renda dos primeiros $44,000 de 16 para 15%. Mais cedo neste ano, o governo já tinha também anunciado a abolição completa (e devolução) da “taxa saúde” e o aumento da faixa isenta de imposto de renda.

Estas devoluções e reduções de impostos representam apenas metade da sobra de orçamento. Com a outra metade, o ministro pretende investir 2.6 bilhões nos próximos 6 anos para combater a pobreza, 337 milhões também nos próximos 6 anos em educação primária e mais 105 milhões por ano para a saúde.

Parece notícia de 1 de abril, mas não é. Foi o assunto do dia hoje na imprensa.

Aqui a matéria completa da Radio Canada.

Boa noite!